Plures aenigmata apud Micci

Folium V

Partimos então em direcção a Khur, e em breve o calor começou a ser demasiado. Felizmente, os minotauros que tínhamos matado traziam mantos próprios para o deserto, e eu tinha tirado um deles para mim, pelo que em breve troquei de roupa e passei a suportar melhor o calor. Mesmo assim, o dia seguinte foi ainda mais difícil, e passámos muita sede. Creio que foi a Eruanne que nos disse para chuparmos umas pedras brancas que encontrámos já nas bordas do deserto e que pelo menos disfarçavam a boca seca. Mas decidimos seguir para Silvanesti, para a frescura da floresta, procurando cortar o máximo de caminho antes de termos de entrar no deserto propriamente dito. Felizmente, ao fim do dia 5 de Gelo Brilhante, encontrámos um acampamento de nómadas Khur que foram muito hospitaleiros e nos deram guarida e refrescos.


Viajando com os Mikku

Deitámo-nos tarde porque os Mikku parecem nunca se cansar de festas. O Karol insistiu em dançar e foi realmente curioso ver como ele parecia diferente no meio daquela alegria toda, parecia que pela primeira vez na vida se estava a divertir e a atirar para longe de si a carga que o deixa sempre macambúzio. Durou pouco, mas foi bom. Eu acho que não dancei, mas já não tenho a certeza. Se calhar bebi e não me lembro.

Dormimos numa tenda dos Mikku, reservada só para nós, e acordámos sobressaltados a certa altura. De alguma forma inexplicável, dois remoinhos de vento formaram-se dentro da nossa tenda e começaram a atacar-nos. Conseguimo-nos desembaraçar deles, mas logo a seguir alguns de nós tiveram uma visão de uma rapariga fantasmagórica que nos falou. Mais uma vez, alguém nos atirou com um enigma que parecia querer empurrar-nos para algum destino pré-fixado. O Arauto que tinha sonhado connosco; o homem que explodiu à nossa frente, Sheilin que entrou em transe e nos fez uma profecia de que nem ela própria se lembra... e agora esta miúda fantasma! E não pararam aqui. No templo de Hurim tivemos montes delas, e quando finalmente nos viemos embora, esta moça fantasma tornou a aparecer-nos. Realmente, andam aqui fortes poderes a tentar influenciar-nos ou manipular-nos. Eu acredito que são os Deuses da Luz que nos movem, apesar de tolerarem connosco indivíduos de índole duvidosa, e farei tudo para chegar ao fim pretendido

De qualquer modo, esta visão disse-nos mais ou menos o seguinte (na altura apontei onde pude as palavras de que me lembrava):

Vocês serão transportados pela força dos construtores.
Atravessarão o chão vivo e falarão com uma voz que se sobrepõe.
Uma figura de fogo e maldição, nascida do sangue de um dragão,
Guarda uma arma de luz há muito perdida.
Os mortos não têm descanso. Espíritos conduzidos por antigos conflitos
e ciúmes defrontam-se num cemitério.



Acho que havia mais, mas não me recordo. No entanto, acho que isto tudo se pode referir ao que passámos no templo de Hurim. Como hei-de escrever mais à frente, realmente vimos lá espíritos que continuavam há séculos a reviver a noite da traição sinistra que derrubou o templo. São estes os mortos que não têm descanso, e o templo era o seu cemitério. Mas não sei se a Arma de Luz há muito perdida será a espada que de lá trouxe. Realmente, deve ser. Já vi que ela se ilumina em certas ocasiões na escuridão, mas nunca ouvi falar dela em nenhuma lenda. As primeiras duas linhas, porém, é que me dão que pensar. Não consigo perceber o que é o chão vivo, mas parece-me que a desolação onde me encontro agora podia bem receber essa descrição. Este chão mexe-se mais que uma cabra assustada!

Creio que falámos com uma cigana sobre esta visão, mas já não me lembro. Sei que o Karol teve uma leitura, mas guardou para si o que ela lhe disse. Eu, por mim, tentei ouvir tudo o que dizia o Alacar, o chefe dos Mikku, e saber como chegar ao templo de Hurim. Na verdade, foi ele que pela primeira vez nos falou do templo, explicando uma visão anterior. Foi até mais amável do que era justo esperar. Escoltaram-nos até lá, pelo meio do deserto, para que não nos perdêssemos, mas garantiu-nos que nunca eles entrariam no recinto do templo. Não sei porquê, mas pareciam ter um medo religioso de o fazer.

Falei entretanto com a Eruanne, e ela deu-me os dois versos que faltavam.

No templo do traído devem encontrar um fragmento de luz.
Ele vos dirigirá no caminho que por vós foi escolhido para andar.


Não tenho dúvidas que o templo do traído é o templo de Hurim. Alacar contou-nos a sua história: antes do primeiro cataclismo, havia nesta região um templo aos deuses da Luz, que caiu devido a uma invasão de Ogres, bem sucedida por causa de uma traição. A queda desse templo foi uma premonição do Primeiro Cataclismo, e lançou uma maldição sobre todo o vale onde ele estava. Por outro lado, parece claro que o fragmento de luz deve ser a espada de cristal que eu agora uso.

Adiante. Os Mikku levaram-nos até ao templo, numa viagem que durou um dia. Além disso, Alacar apresentou-nos um guerreiro, de nome Fergor, que se disponibilizou para nos ajudar. Ainda hoje, não sei quais eram os seus motivos, mas não tiveram hipóteses de dar frutos. Quando os Mikku nos deixaram no templo de Hurim, disseram que esperariam uma semana por nós, num oásis mais a norte, o Oásis do Limoeiro, a um dia de distância. O templo em si, segundo Alacar, chamava-se Templo das Areias Douradas.