O diário de Violleta VII

Retrato de Elora

Querido Diário:
A noite de ontem foi tão conturbada que nem sei por onde começar. Foi uma daquelas noites do princípio do Outono que mais parece de Verão e banco onde a Maggie trabalha deu uma festa num iate onde estava toda a gente. Eu ainda pensei em ir com a Maggie, mas arranjei um emprego numa empresa de catering e acabei por ir mas como empregada. De qualquer modo a Maggie nunca me poderia levar como namorada, portanto se calhar foi melhor assim. Estava a correr tudo bem até Ele ter aparecido. Não percebi muito bem de onde veio, mas de repente tinha aquele tipo que vi a entrar para o elevador do nosso condomínio à minha frente e a fazer perguntas complicadas. Aparentemente sabia o meu nome e queria saber como é que eu pagava o apartamento.

Eu até lhe ia responder, mas comecei a ficar enjoada com o balanço do barco e acabei por deitar o jantar borda fora. Houve uma confusão enorme, a Maggie apareceu e levou o tipo, o maitre apareceu e mandou-me para a cozinha. Percebi logo que ia ser despedida e a verdade é que não me livrei de uma grande descasca. Só não foi pior porque, passado algum tempo, o dito vizinho apareceu na cozinha a defender-me e acabou por me levar para casa. Apesar de estar a sentir-me ainda muito enjoada, passei pela Alexis que estava a sair da casa de banho e consegui ver uma morena meia vestida lá dentro. Não perde tempo, esta miúda, mas ainda se vai meter em sarilhos, porque no convés estava a Megan, com o ar mais desolado do mundo. Acho que a situação entre elas as duas ainda este mal resolvida e só agradeço a Deus não haver mal-entendidos destes entre mim e a Maggie. Ao sair do barco ainda vi a Clèmentine, perto de uma velhota coberta de jóias e que só falava em Gay Pride Parade. Acho incrível como as pessoas não conseguem separar a Clem da mãe. Desfiles não é nada a cena da Clem, que não herdou a faceta extrovertida da mãe. Coitada. Lá consegui sair do iate, mas não consegui avisar a Maggie. Ainda achei que era ela a olhar para mim da amurada do iate, enquanto nos afastávamos no bote, mas estava um luar lindo e Ele estava a dizer qualquer coisa sobre o mar e quando olhei outra vez já lá não estava.
Ele chama-se Giorgio e foi muito querido no caminho para casa. Um perfeito cavalheiro durante a viagem de bote e no Maserati dele, até chegarmos a casa. Não demoramos muito tempo, e falámos essencialmente de coisas sem importância, mas faz-me lembrar a Maggie, não sei porquê. Depois no elevador começou a tornar-se desagradável, a insistir para irmos para casa dele, a aproximar-se demais. Estava imenso calor, o meu estômago ressentiu-se com o movimento do elevador, ele estava mesmo em cima de mim e de repente ficou tudo escuro.
Acordei em casa, na cama. Ou pelo menos achei que estava em casa, o quarto era igual, o tecto e as paredes iguais, só as mobílias eram diferentes. Estava sozinha e achei que a Maggie tinha mudado tudo para me fazer uma surpresa. Para dizer a verdade fiquei um bocadinho chateada, ela gasta dinheiro a rodos e eu nem um emprego tenho. Fui tomar duche a pensar nisso e ia ficando cada vez mais chateada. Até o gel de banho ela tinha mudado, as toalhas, tudo. No fim do banho vesti um roupão verde que lá estava e fui-me vestir. Estranhei o roupão ser grande, mas a Maggie tem umas pernas que nunca mais acabam. Dirigi-me à cómoda e abri a gaveta onde achei lógico estar a roupa interior. Estava cheia de cuecas de homem! A primeira coisa que me passou pela cabeça foi que a Maggie me andava a enganar. Chamei por ela e quando me virei para ir à procura dela deparei com o Giorgio no outro lado do quarto, com duas canecas na mão, vestido ainda com as calças do smoking todas amarrotadas e a camisa aberta. Assustei-me. Muito. Ouvi um berro muito ao longe e depois apercebi-me que era eu. Ele atravessou o quarto na minha direcção e eu fugi. Comecei a correr, atravessei a sala, saí do apartamento e apercebi-me de que não era o meu. Bati à porta do meu apartamento freneticamente e, finalmente, a Maggie abriu a porta, muito séria. Estava pálida, ainda vestida com o vestido da festa e com umas enormes olheiras, como se não tivesse dormido. Abracei-me a ela aliviada por vê-las, mas ela parecia zangadíssima. Tentei explicar-lhe tudo, mas ela teve imensa dificuldade em perceber, por mais que eu lhe dissesse que o roupão não era meu e que tinha acordado na cama errada. O Giorgio complicou tudo quando apareceu com a minha roupa nas mãos. Por fim lá consegui acalmar a Maggie. Parece que o Giorgio é o tipo que anda atrás do emprego dela lá no banco e não lhe facilita nada a vida ele ser nosso vizinho. Avisei-a logo que temos de ter cuidado para ele não desconfiar da nossa relação e que se calhar é melhor ela não andar sempre agarrada a mim.
Para relaxar fomos tomar o pequeno-almoço no “La rose cachée”. Estava tudo muito bem, embora a Clém tivesse tido um comportamento muito estranho quando lhe pedi um papel e uma caneta para fazer um novo currículo. Não me deixou ir eu ao escritório e fechou-se lá dentro. Tanta fita para me dar papel e caneta e quando apareceu deu-me uma folha cor-de-rosa perfumada e uma caneta com um pompom. Tive imensa vontade de gozar com ela, mas entretanto apareceu a Mãe dela e ia dando com ela em doida, com a história da gay parade. Lá nos juntámos todas e conseguimos instalar a senhora num hotel. A Alexis entusiasmou-se toda com a assistente da mãe da Clem e com a pressa fiquei com o telemóvel dela. Ainda houve um incidente com laxante no chá, mas felizmente ninguém o bebeu.
Fui à escola de surf devolver o telemóvel à Alex e deparei-me com uma cena linda: a morena que estava ontem meio despida no iate, em biquini, acompanhada por um segurança monstruoso, toda melosa para cima da Alex, a assistente louraça (acho que se chama Ann) também de biquini e pronta para uma aula de surf. A Megan, a patrulhar a praia, mas como os olhos enfiados na escola de surf. Acho que a Alex anda a comer mais do que o que consegue digerir. Não consegui resistir, vesti um dos biquinis da Alex e juntei-me à aula de surf.
A morena não parava de cair da prancha, para ver se a Alex a ajudava e a Alex só com olhos para a Ann. Por fim a morena lá se fartou e saiu da água toda lixada. Não me aprece que isto acabe assim. A Megan também se fartou de andar por ali e foi-se sentar na cadeira dela e eu vim-me embora, cansada do surf e da noite mal dormida. Deixei a Alex a apanhar ondas com a Ann, com a certeza de que vai apanhar as ondas da Ann, antes do final do dia.

Geners, 7 de Outubro de 2007